Casa Azul Flipinha Flipzona
Blog da Flip 10 anos

Deixa disso, rapaz

10-07-2013

Nicolas Behr

 

O poeta Nicolas Behr na mesa Maus Hábitos, na Flip 2013

*por Vinicius Jatobá

Maravilha é isso: esbarrar com um escritor do qual a gente nunca ouvir falar, e imediatamente se tornar amigo dele. Nicolas Behr é meu mais novo amigo: sua poesia atingiu primeiro meu emocional, meu sentimental, e ficou um tempo por isso mesmo. Provocou, depois do sorriso, reflexão: convidou em buscar referências, em criar parâmetros, em esboçar um argumento. Mas logo na releitura é como se Behr me dissesse deixe disso rapaz, e há muito para rir e se espantar em sua poesia, um tom que vai desarmando qualquer pretensão e ideia pré-concebida, e é assim que eu e Nicolas Behr nos tornamos amigos de toda vida. Tenho certeza que há algo muito importante a se dizer sobre qualquer um de seus livros, e que em suas métricas e paródias e enfrentamentos com Brasília e toda sua mitologia de burocratas e de fantasmas de JK e de Asas Norte e Sul e de Planos Pilotos, Behr explora algum sentido ético e estético que me escapa nesse exato momento, não porque Behr não mereça uma reflexão sobre sua obra poética, claramente poderosa e original, mas porque sempre que comecei a escrever uma resenha sobre Nicolas Behr desde que me comprometi com o blog da FLIP em escrever uma resenha sobre Nicolas Behr, e fui em algum de seus livros para me fundamentar, era como se Behr me dissesse deixa disso rapaz, não nos levemos tão a sério. Behr, como todo artista consciente, sabe dos efeitos que provoca. “Eu finjo que sou um poeta fácil / você finge que faz força para me entender”, dois versos que estão em um de seus poemas, e o crítico fica logo desarmado porque há engenho e controle na estranha locução vernacular sobre o qual Berh constrói sua poesia, e o crítico sabe de partida que o entendimento desses versos não está no esforço, mesmo que seja evidente que Behr se esforça muito para soar assim sem esforço, um “poeta fácil”, e o entendimento para esses poemas está em algo mais singelo e simples, algo mais relaxado e simples e essencial. Aqui e ali Behr desvela sofrimento, há um ocre de ansiedade, um cheiro de ditadura, uma lembrança infeliz tão embaçada na geografia da cidade que ele arma e desarma, namorando a própria geometria de seus versos com a Brasília arquitetada e construída, com suas superquadras e suas avenidas e seus endereços de siglas, sem nomes e sobrenomes, mas logo Behr convida ao baile o Eros e a Lua e os cheiros do Cerrado, e até seu querido fantasmal JK, e um rumor mais jocoso e desencontrado retorna, assume o coro, e convida mais uma vez ao sorriso, aos jogos de palavras e corpos, ao inesperado lirismo do concreto e das linhas retas. E aí Berh diz deixa disso rapaz, salve o arquivo e feche o texto com o que você já tem, e envia logo pro blog da FLIP. E faço isso, porque Nicolas Behr é meu amigo, e confio nos amigos.

 

Construindo a nova literatura brasileira

05-07-2013

José Luiz Passos e Paulo Scott

João Gabriel de Lima (mediador), José Luiz Passos e Paulo Scott na mesa Formas da derrota

*por Vinicius Jatobá

Esse ano Paraty encontra-se privilegiada: há uma exuberância de excepcionais novos talentos da narrativa nacional. Estarão em suas ruas coloniais quatro escritores jovens em pleno controle de suas criatividades: Daniel Galera, Paulo Scott, José Luiz Passos (na programação principal) e Michel Laub (na programação paralela). É inegável que está chegando o momento em que não é mais necessário, nem pela crítica e muito menos pelas próprias editora, superestimar os livros: agora eles existem, provocativos e maduros, enfrentando diferentes regiões do imaginário nacional, expandindo seu léxico (Laub, Scott), ou reformulando-o (Galera, Passos), e assertivos enquanto realizações estéticas. Nenhum desses escritores escreveu ainda sua obra-prima, estão no começo de suas trajetórias, e isso entusiasma. E seus melhores livros possuem fissuras e problemas e questões que sugerem mentes em movimento, inquietas. Esse é um bom momento da literatura brasileira. Ao contrário do lugar-comum, não procede sugerir que apenas o tempo dirá o que realmente é bom na literatura de determinado momento. Não há nada de ameaçador em celebrar a excelência atingida no momento presente, e a bengala da passagem do tempo é muitas vezes escudo ansioso, um álibi para economizar na admiração, sonegar admiração. Se existem contextos que tornam alguns livros mais visíveis que outros, a prova a olho nu é sempre fatal: Habitante Irreal, Barba ensopada de sangue, O sonâmbulo amador e Diário da Queda possuem autoridade emocional e estética, e são momentos pilares e seminais na construção de uma nova literatura brasileira.

O mais velho de todos, Paulo Scott, escreveu o livro mais selvagem da literatura brasileira recente, Habitante Irreal.De certa forma, o livro acontece apenas em dois momentos: as longuíssimas notas de rodapé que iniciam e terminam o romance, e contextualizam o enredo. O resto é vômito, desconforto, frustração; mas também mitologia, e meta-literatura. Paulo, protagonista do romance, é um advogado recém-formado descrente com os caminhos políticos do PT. Estamos em 1989. Em uma viagem de carro cruza com uma índia na beira da estrada; ele retorna para oferecer uma carona, e se apaixona; depois tem um filho, que desconhece, com essa índia. Parte para Londres, onde se entrega a uma vida desregrada em que deseja apagar seu desconforto com o que acontece com o Brasil, que é o Brasil do Collor, das privatizações, da esquerda subtraída pela mídia. Paulo retorna ao Brasil. Há encontros, desencontros.

A grande fortaleza do livro é sua linguagem. O livro é um torrente de palavras cuspidas, uma prosa veloz e agregadora que mistura tudo, diálogo, descrições, passagens de tempo, reproduzindo na forma a degradação ideológica do mundo ao redor de Paulo.É uma leitura-transe onde não importa o que acontece, e sim comoacontece. Para aumentar a confusão, Scott ainda deflagra um passeio pela nossa tradição indigenista: um dos elementos-chaves poéticos e intelectuais do Romantismo na construção de uma identidade nacional foi o “índio”, a manipulação dessa personagem no imaginário, e Scott, com Donato, o filho mestiço de Paulo, acaba por revolcar um espaço fundacional de nossa tradição literária, trazendo-o para o campo duro da luta ideológica. Nem Policarpo Quaresma, e muito menos Macunaíma,Habitante Irrealainda não deixa de compartilhar com esses clássicos uma energia amalucada, tornando-se assim uma dolorida sátira mal-humorada, uma vomitada carta de amor contemporâneaao hospício que o Brasil se tornou.

Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera é um momento de inflexão na obra de seu autor. Seus romances Mãos de Cavalo e Cordilheira, e também a brilhante novela Até o dia que o cão morreu, são precisos exercícios de autocontrole e de economia, narrativas de rédeas em constante refreamento. Isso porque as personagens de Galera são falidas emocionalmente: o médico de Mãos de Cavalo, a escritora de Cordilheira, e o tradutor de Cão encontram-se entravados, conspirando impasses, e as suas nos romances sempre começam com uma ação – escalar uma montanha, cuidar de um cachorro, engravidar – que entendem como um compromisso capaz de retirá-los de seus próprios impasses: seja voltar a escrever após anos de silêncio, ou corrigir a frustração com um emprego opressivo, ou até mesmo construir uma vida adulta realmente madura.

Apesar da pouca idade, Galera tem uma poética já definida: os entraves emocionais, as zonas de silêncio entre homens e mulheres, o conforto encontrado na solidão, os limites físicos do corpo.O romance Barba possui todos esses elementos. O protagonista, após o suicídio de seu pai, decide partir para Garopaba, cidade catarinense litorânea onde seu avô foi vítima de um misterioso assassinato. Leva consigo a cadela Beta. Mas essa não é sua única bagagem: seu próprio rosto e gestos e voz lembram seu avô Galdério, e a pequena cidade começa a se tornar algo desconfiada de sua presença conforme ele junta os pontos em redor do mistério desse assassinato. A inflexão de Barbaestá na forma algo descuidada e prolixa com que a narrativa avança: a prosa suja, encardida, repleta de redundâncias, informações algo supérfluas, mesmo que esse excesso de detalhes esteja em sintonia com a doença do protagonista (ele esquece o rosto das pessoas mesmo momentos antes de encontrá-las), é uma novidade no trabalho de Galera. Barba é o primeiro embate de Galera com um prosa realista, uma prosa que não foge nem da superfície dos objetos, de uma relação descritiva com o mundo. É um livro de ajuste em sua trajetória: tanto a prosa arrisca, quanto o personagem é diferente: ágil, proativo, curioso, aventuroso, representa uma nova atitude narrativa de Daniel Galera. Esse romance coloca Galera em posição para se tornar um escritor algo incomum na literatura brasileira: um retratista cuja obra, por conta dessa prosa que alia a observação psicológica anterior com esse novo interesse pela exterioridade do mundo, pode envelhecer refletindo os dilemas do Brasil contemporâneo, exatamente como escritores estadunidenses como Roth e DeLillo que claramente influenciaram seu trabalho.

O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos, é um romance brilhante. A FLIP que celebra o legado de Graciliano Ramos pode estar justamente abrigando seu filho esporão mais engenhoso: sonâmbulo, como o melhor de Ramos – S. Bernardo, Memórias do Cárcere e Angústia –, estabelece uma geografia narrativa prenha, misto de deambulação subjetiva e de crítica social. Exatamente como em Angústia, a narrativa tem o sabor de um sonho ruim: indo e voltando no tempo, com uma qualidade ruminante, zonza, o título é perfeito: sem discernir o que é realidade e o que é fantasia, ou o que é memória ou rastilho de sonho, o relato de Jurandir provoca mais dúvidas do que certezas, e investe na instabilidade constante da narrativa. Jurandir tem uma dor profunda, que ao final do livro se revela com a força de um recalque cujo “livro”, um conjunto de quatro cadernos, é a tentativa de aplacar; e seu afeto pela esposa e sua amantes, o conforto distinto que encontra em cada uma delas, são apenas duas faces de uma mesma moeda: seu desejo de sempre querer aquilo que não está ao seu alcance.

Sua vida é organizada em redor de mentiras, e numa viagem a capital, por conta de um processo de um funcionário da empresa têxtil em que trabalha, e sufocado pelo seu asfixiante desejo de correção, simplesmente toca fogo em seu carro. É internado em uma clínica; e a narrativa, os quatro cadernos que mantém durante sua internação, é a tentativa de encontrar novamente sua saúde. Há no livro o mesmo cenário de Ramos – a pobreza e exploração e faltas de oportunidades, e a transmissão intocada de uma cruel lógica fundiária para a indústria, que em Ramos, principalmente em Vidas Secas, parece imemorial –, mas a deambulação avança em termos mais contemporâneos: sonhos, contra-relatos, fragmentos. Passos se alimenta de boa parte da tradição literária do Nordeste: além de Ramos e Rego, é possível rastrear também a sombra dos primeiros romances de Osman Lins, tanto O Visitante quanto O Fiel e a Pedra, no esforço em criar um realismo social com uma linguagem onírica, subjetiva, que avança por metáfora e arquétipos de nossa subjetividade.

Michel Laub é um talento peculiar: publica tão regularmente, e com uma qualidade tão alta, que não sugere sua pouca idade. Michel Laub mal completou 40 anos. Sua invisibilidade se deve a uma peculiaridade de seu talento, ao qual se manteve sempre fiel: Laubé o único escritor brasileiro contemporâneo que se dedica exclusivamente ao gênero mais difícil de todos: a novela. Foram cinco até o momento, todas igualmente brilhantes e tramadas. Bem temperadas, e escritas no equilíbrio exato entre contar e esconder, revelar e sugerir, cada cobre uma experiência emocional completamente diferente da outra.

Desde o juiz enfrentando um dilema moral em Música Anterior, em que problemas pessoais acabam por influenciá-lo negativamente em um processo em que trabalha, passando por Longe da Água, relato de culpa e expiação que é algo geminada do deslumbrante Diário da Queda, em que seus narradores repensam a formação intelectual e afetiva de suas vidas a sombra de erros cometidos na juventude, a primeira revisitando um verão mágico e o último revolcando lembranças do Nazismo e Auschwitz, até o subestimado O Segundo Tempo, um livro que parte da experiência de dois irmãos como espectadores de um grande clássico do futebol gaúcho para explorar os impactos de emocionais do divórcio de seus pais, e finalmente pousando na divertida comédia intelectual O Gato Diz Adeus, em que toda parcimônia emocional de um casal é colocada em cheque quando surge na vida deles um terceiro elemento, um sedutor professor universitário. Impressiona a pletora de interesses e personagens, a sua sensibilidade para dramas de classe média, pequenos, focados e intensos. Os livros de Laub não ultrapassam as 150 páginas, o que diz imensamente acerca de seu talento: existe sempre a sensação de que acontece muita coisa em seus livros porque Laub faz os elementos emocionais paralelos de suas narrativas convergirem com extrema economia. Como Laub opera o mesmo efeito de forma diferente em cada narrativa é um toque admirável de engenho e controle técnico e expressivo que nem mesmo em releituras fica evidente.

Paraty, dessa forma, se dá o luxo de abrigar, em sua 11 FLIP, uma quantidade exuberante de talento nacional esse ano. Não se pode encarar esse privilégio de forma gratuita: escritores com essa potencia e qualidade são raríssimos, e que quatro deles se reúnam no mesmo lugar, na mesma semana, é uma oportunidade rara de celebração e de leitura. Cada um, de seu modo, está colaborando na escrita de um novo capítulo de nossa história cultural. E um capítulo que deixou de ser promissor, abandonou a qualidade de rascunho, e agora passa a ser escrito em caligrafia firme e de letras fortes. O mais instigante, e interessante, é que os melhores livros de cada um desses autores ainda está por vir. É esperar, apertar os cintos, e reler o que já publicaram enquanto suas novas pérolas não chegam.

 

Milton Hatoum: efeito duplo

03-07-2013

Milton Hatoum 2008©Adriana Vichi

por Vinicius Jatobá

O novo livro de Milton Hatoum, Um solitário à espreita, tem efeito duplo. De um lado gera felicidade uma vez que todo ano que Hatoum publica um livro é um bom ano para a literatura brasileira. Por outro, apenas aumenta a ansiedade dos leitores. Um solitário é uma reunião de crônicas e diversos textos esparsos que Hatoum publicou em revistas e jornais de grande circulação, com destaque para O Estado de S. Paulo. A obra de Hatoum é poderosa: uma belíssima estreia com Relato de um certo oriente, romance-coral que mergulha nas lembranças de uma família manauara reconstituídas por uma mulher retornando do exílio; segue com Dois Irmãos, um relato passional e enérgico acerca do esfacelamento de uma família de comerciantes por conta do amor desigual dedicado por um mãe a seus filhos gêmeos; e depois com o cerebral e cinzelado Cinzas do Norte, mais um relato de decomposição familiar agora centrado no desencontro entre dois amigos, um abastado filho de latifundiário de Juta e um rapaz filho criado pelos seus tios. Hatoum ainda publicou a novela Órfão do Eldorado, uma fanática novela de amor infeliz em que a riqueza da borracha, que prometia a toda região amazônica um futuro áureo, entra em decadência ceifando o destino de toda uma família. Para arredondar esse percurso, Hatoum publicou a coletânea de contos A Cidade Ilhada, em que retoma a temperatura de sua Manaus afetiva, mas também leva sua ficção para outros espaços, como Paris, Brasília, Califórnia, e Rio de Janeiro. Entre Relato, de 1989, e Cidade, de 2009, duas décadas se passaram. A obra de Hatoum, com cinco livros, é magra, mas poderosa.

Um solitário à espreita vem se juntar ao bojo. Como toda coletânea de crônicas, é um livro irregular. Há textos que trazem toda graça e desenho da escrita vernacular e veloz que Hatoum consegue em suas melhores ficções; e outros, como acontece em muitas crônicas, parecem engasgados pela necessidade do cronista em escrever algo para cumprir o compromisso do encargo semanal ou quinzenal. Há um conjunto de textos do livro que poderiam tranquilamente compor uma nova coletânea de contos; e há fragmentos que parecem, ainda que com nomes distintos, trechos não aproveitados em seus romances. O livro, contudo, como tudo que sai da pena do escritor manauaram é um deleite. É possível nele tanto rastrear temas e motivos e personagens (como o excepcional tio Ran) de sua ficção, revisitando com o cronista as cores e cheiros de sua Manaus infantil e juvenil, como compreender, em seu furor mais político e social, toda raiva e desejo de mudança por trás de Dois Irmãos e Cinzas do Norte: os fantasmas da ditadura militar, a Manaus destruída pela voracidade da Zona Franca, os descasos da administração pública, principalmente na área da educação, e as dores do exílio político. E também mais: parte das crônicas traçam um quadro algo pessimista do estado da cultura literária e da leitura no País e no mundo, enquanto um outro conjunto ilumina certa descrença com o momento político de distopia política e sua capacidade de engajamento – e que sofreriam uma cavalar dose de entusiasmo se espelhassem os recentes movimentos da revolta do Passe Livre. Há, no entanto, uma região em Um solitário de desencaixe e de novidade: os texto que retratam suas vivencias no estrangeiro, notadamente em Paris. Com a promessa feita por Hatoum de um romance que retrata a vida de brasileiros exilados na Europa para o próximo ano, essas crônicas algo alheias e diferentes atiçam a curiosidade (e ansiedade) de seus leitores dedicados.

 

Impossível ignorar o amor

27-06-2013

Sophie Calle e Gregóire Bouillier

Mesa 12: Entre quatro paredes na Flip 2009, com Sophie Calle e Gregóire Bouillier

por Joelson Vasconcelos*

A mesa da FLIP que mais me marcou aconteceu no sábado da edição 2009. Sophie Calle e Gregóire Bouillier, ex-namorados, tratavam sobre a fronteira sutil que separa arte e vida pessoal, já que as obras dos dois tinham como tema em comum os desenlaces pós-separação.

O que já era interessante por si só ficou ainda melhor quando percebi que o debate foi parar no público presente à tenda do telão. Várias pessoas, em pequenos grupos, discutiam sobre os limites da ética ao expor a vida íntima do parceiro, mesmo que em forma de arte. Tomava-se até partido dos entrevistados, em que uns diziam que Gregóire fora oportunista ao abandonar Sophie quando ela o ajudou na sua carreira, enquanto outros diziam que ela fazia papel de vítima. Opiniões firmes e passionais sobre dois personagens de uma história real.

Enfim, já presenciei debates acalorados na FLIP, mas ver esse calor se espalhar no público da maneira como aconteceu, foi a primeira vez. Impossível ignorar o amor, mesmo aquele que termina.

*Joelson teve seu texto selecionado a partir da ação que iniciamos em nosso Facebook, no dia 28 de maio. A ideia era que os interessados enviassem relatos da melhor discussão literária que já presenciaram na Flip.

 

Bon appétit

25-06-2013

Ilustração Alê

 

 

por Alexandre Benoit

 

Jorge sempre Amado

24-06-2013

Jorge Amado

por Gabriela Misael*

Na Edição de 2012 da Flip, o escritor baiano, João Ubaldo e o autor Walcyr Carrasco falaram sobre um dos autores mais relevantes no cenário cultural brasileiro, Jorge Amado. A mesa foi em comemoração ao centenário do autor.

João Ubaldo esmiuçou detalhes de sua amizade, falou da influência de Amado na representação das minorias, a ligação com a política, sobretudo com ACM e ainda, contou sobre a fama de galanteador e ao mesmo tempo do temor pelo ciúme da esposa, Zélia.

“Não consigo falar em tão pouco tempo sobre uma pessoa tão importante como foi  Jorge Amado. Mas podemos dizer que antes dele não se havia falado em negros e sobre o povo brasileiro com personagens e elementos tão claros e verdadeiros”, disse Ubaldo.

E como foi bom ouvir falar de Gabriela, aquela que inspirou meus pais a me nomearem e do Cravo e da Canela, tatuados em minha nuca. “Apesar de não seguir na íntegra, estou sendo fiel a Jorge Amado porque tudo é inspirado em sua obra”, explicou Carrasco sobre a novela global.

Os convidados falaram também sobre regionalização cultural e sobre a importância que os educadores têm no despertar para a literatura em sala de aula. “Não pode ser de maneira chata. A leitura e explicação dela precisam ser prazerosas”, aconselhou Ubaldo.

* Gabriela teve seu texto selecionado a partir da ação que iniciamos em nosso Facebook, no dia 28 de maio. A ideia era que os interessados enviassem relatos da melhor discussão literária que já presenciaram na Flip. Os outros textos escolhidos serão publicados no blog ao longo do mês.

 

Lydia Davis em três atos

24-06-2013

Lydia Davis

 

por Vinicius Jatobá

 

LER LYDIA DAVIS: PRIMEIRA APROXIMAÇÃO

Tipos de perturbação está classificado como ficções. Não como contos, o que seria natural, e esperado. Mas como ficções, o que em parte incluiria contos, uma vez que contos são ficções, mas não seria tão exato com a experiência de se ler Lydia Davis quanto usar ficções, como é mais apropriado. Isso porque apesar de todas as narrativas de Tipos de perturbação serem contos, nomeá-los como ficções prepara o leitor para aquilo que irá encontrar. Isso porque, mais um motivo, e apesar, novamente, de serem contos, eles são contos a despeito do que Lydia Davis opera com seus narradores enquanto escreve suas narrativas.

Quando o leitor tem diante de si um conto ele tem uma expectativa do que vai encontrar no texto. Um arco narrativo poeticamente concentrado, um narrador focado no desvelamento emocional de uma única situação específica, e um senso de tempo e espaço elegantemente delineado. É o que se encontra em Tchekhov e Maupassant, dois contistas canônicos; e ainda que Hemingway, Joyce e Mansfield tenham expandido e recodificado esses elementos, ainda assim eles existem nos seus exóticos e distintos contos. Há um idioma, uma gramática. Davis tem plena consciência dessa gramática, desse idioma; o que ela faz é desnudar o conto tão completamente desses elementos que o que sobra, se for nomeado de conto, provocaria frustração na expectativa gerada no leitor. São, portanto, ficções. Ainda que sejam contos, uma vez que o leitor alfabetizado na gramática narrativa do conto preenche, com a memória de suas outras leituras, aquilo que Davis escolhe omitir.

LER LYDIA DAVIS: SEGUNDA APROXIMAÇÃO

A maior aposta de Lydia Davis é na inteligência do leitor em preencher o espaço em branco em redor ao texto, tão econômico e preciso, com seu conhecimento de como o gênero conto opera. Sua ficção, assim, demanda inteligência, e afina a sensibilidade. E Davis coloca todas suas cartas, sua operação narrativa sofisticada, à mesa. O contraste entre duas ficções do livro iluminam bem essa aposta de Davis. Em “Rumo ao sul, lendo Piovarante Marche”, o narrador descreve uma viagem de um personagem jamais nomeado rumo ao sul. Há frases assim: “Ônibus saindo da estrada, sol por trás, sol em volta e na janela e na página, não lê”. Em todas as ficções frases assim são usadas para avançar a narrativa. O que Davis opera nesse conto é o uso de notas de rodapé que descrevem, usando uma gramática narrativa canônica, o que a personagem sente durante a viagem, lendo o livro, e olhando através da janela.

Ela escreve no texto da ficção (mais bem fora do texto: a nota de rodapé acontece fora do texto) justamente os processos de preenchimento que o leitor realiza enquanto lê seus textos: investir sua imaginação no espaço lacunar, intervalar. Isso fica evidente em uma belíssima ficção no final do livro, “Viajando com Mamãe”. Três páginas, seis capítulos. Uma filha viaja com sua mãe. Mas logo não é sua mãe, mas as cinzas dela. Ela prefere deixá-la na mochila, “mais perto da minha cabeça”, ao invés de despachá-la na mala “de rodinhas”. Depois, em outro capítulo, a narradora afirma que sair da cidade parecia “tão definitivo” que talvez “precisaria trocar de dinheiro no lugar para onde estávamos indo”. Depois de um espaço em branco na página, afirma: “Antes, ela não conseguia sair de casa. Agora está em movimento.” E no último capítulo, afirma “Faz tanto tempo que não viajamos juntas”.

Alice Munro, a melhor contista em atividade, exploraria essa trama de doença, distância afetiva, fuga de memórias do passado e luto em mais uma de suas pérolas de 30-40 páginas. A gravidade soturna da doença que entrava a mãe, a aproximação difícil de uma filha que está distante e alheia, a culpa pela leveza que a promessa de uma nova vida gera naquele que é libertado pela morte de um ente querido debilitado. Só a frase “faz tanto tempo que não viajamos juntas” levaria Munro a uma exploração de camadas sobre camadas de silêncios, ressentimentos, e desejos sonegados. A aposta de Davis é distinta, pois ela é uma brilhante humorista. Esse é o ponto que faz com que salte de uma mera formalista, apostando em geniosas estratégias narrativas, para uma poeta da solidão contemporânea. De toda a gama de sentimentos que Munro exploraria, Davis escolheu o único sentimento que escaparia a Munro: a ironia de que somente com as cinzas da mãe em um embrulho na mochila finalmente elas podem conviver, estar juntas, e conversarem. A mãe, agora, está “perto” da cabeça. E está, após anos doente, novamente saudável, “em movimento”. A narradora termina a ficção com a luminosa frase “Há tantos lugares aonde podemos ir”. E, assim, selando essa nova relação filial com a promessa feliz de cumplicidade que jamais conquistaram em vida.

LER LYDIA DAVIS: TERCEIRA APROXIMAÇÃO

Grandes artistas não temem o humor quando o humor tempera e ilumina aquilo que veem de singular em suas apreensões do humano. O humorismo de Davis alia uma atitude com seu natural sintoma. O mascaramento, e os naturais impedimentos que essa atitude acarreta. Octavio Paz, ao refletir sobre o humorismo em Dom Quixote, encontra o elemento por meio do qual entende o comovente universalismo do Cavaleiro da Triste Figura: o mascaramento de uma figura frágil com o rosto de um herói, valoroso e inquebrável, que Alonso Quijano, por seus atributos, jamais poderá cumprir. Do desencontro entre aquilo que Alonso realmente é e a máscara de Quixote que ele usa faz com que pense que seja que nasce o triste humorismo do romance: o leitor ri desse desencontro, pois Cervantes desde o início, ao criar Sancho, abre espaço para o comentário divertido e jocoso dessa contradição. No entanto, o universalismo e a tragédia nascem quando Cervante habilmente torna o próprio Sancho em doente de ficção, e Quijano um homem pragmático e descrente. E isso porque o leitor percebe que tem suas máscaras, e vive também os sintomas desses desencontros entre seus sonhos, e a realidade de suas vidas. E isso é, segundo Paz, o coração do humorismo, e sua potencia poética.

As máscaras das personagens de Davis são os papéis que elas esperam cumprir com precisão – seja de mãe e filha, e de amiga e esposa –, e os sintomas são pensamentos, vozes, repletos de impedimentos, que em casos mais ligeiros tornam-se impasses, mas em situações mais morosas rituais metódicos de imolação. É aqui que a forma das narrativas e a visão poética de Davis casam: sua prosa esparsa, nua, serve ao tipo de experiência por meio do qual pode explorar essa sua visão de mundo uma vez que as perturbações que narra, ainda que toquem nos amplos sentidos ressonados pelos temas de isolamento, de solidão e de medo, precisam apenas de um gesto para serem concentradas poeticamente. A construção de um arco com começo, meio e fim não contribui para a intenção de Davis de explorar o instante em que aquilo que seu personagem pensa de si e aquilo que ele realmente é entram em cisão, e diálogo.

Então as ficções de Davis são repletas de gestos que carecem de sentido épico. Suas mulheres arrumam suas casas, cuidam de seus filhos, escolhem empregadas domésticas, falam ao telefone, conversam com seus maridos; ou traduzem e dirigem documentários, e cuidam de inventários. Apenas não fazem nada disso. “Em pouco tempo quase todo assunto de que querem falar lembra mais uma cena desagradável e se torna um assunto de que não podem falar”, ou “Ela não pode dirigir quando há muitas nuvens no céu. Ou melhor, se conseguir dirigir com muitas nuvens, o rádio não pode estar ligado se houver também passageiros no carro”, ou “Ninguém me liga. Não posso verificar se tem recado na secretaria eletrônica porque não saí de casa. Se eu sair, talvez alguém ligue enquanto estiver fora. Aí poderei checar se há recados quando voltar”. Assim, essas ficções, que aparentam monólogos, comportam em si algo mais espraiado: a conversa interior entre máscara e essência, em busca de uma solução para vencer os impedimentos, e suspender os rituais de imolação. O humorismo de Davis é tristonho, quando o leitor segue namorando o resíduo da leitura em sua memória; e acaba identificando nesse resíduo suas pequenas muralhas, e seus inescapáveis ritos de auto-isolamento.

Para uma grande artista, um gesto basta.

 

Francisco Bosco: um atalho furtivo dentro do caos

19-06-2013

Alta-ajuda-francisco-bosco

 

por Vinicius Jatobá*

Em Alta Ajuda, seu livro mais recente, o compositor e ensaísta Francisco Bosco reúne um variado e abrangente conjunto de artigos publicados originalmente no jornal O Globo. Lidos no jornal, espaço descontínuo, os textos de Bosco são caprichosos exercícios de desconforto. Aparentam crônicas, pela sua escrita agradável, fluente, e por sua brevidade; e flertam com a crônica por tomarem de sua tradição temas-chaves como a amizade, o amor, o desencontro. Seus artigos ambicionam mais, no entanto. São uma oportunidade para Bosco ir além do senso comum, que tanto o incomoda; e um convite ao leitor para frear o ritmo sôfrego com que vive, ainda que pela curta duração do texto que está lendo. Pensar, sentir, sorver um estímulo distinto da linguagem epigramática das notícias do jornal, das frases-feitas da propaganda que os circundam, e levar algo do texto para seu mundo. Um dos prazeres de ler semanalmente Francisco Bosco é perceber o quanto ele está “fora do lugar”. A linguagem trameira e molenga com que escreve seus artigos, não tanto os tema, mas o que deles apreende, e o pouco espaço com que dispõem para traçar e realizar o arco de seu pensamento, fazem de sua coluna um corpo estranho. E essa é sua graça. Há articulistas cujo prazer está em discordar com eles, e outros cujo afã está na irritação semanal que provocam. Com Bosco a relação é mais singela: ler seus artigos é acompanhá-lo por um atalho furtivo dentro do caos de palavras e de imagens do jornal. Ler Bosco é frear.

Uma vez em livro seus artigos ganham outro estatuto. A primeira metamorfose é que estão em baile uníssono e não mais brigam com os sons hegemônicos em seu redor, que os transformavam em intervalares ruídos: agora convivem, enérgicos, em espaço fraterno. Não apenas recuperam a mesma tome e voz, que o sabor da leitura longínqua da semana anterior pode apagar da memória, mas agora lado a lado constroem sentidos juntos. Tornam-se peças em um quebra-cabeças do pensamento de Bosco, e revelam regularidades de questões e de preocupações. A anterior pletora de artigos sobre relações amorosas, lidas no jornal como pequenos e isolados casos curiosos, comédias ligeiras, revelam-se em conjunto ocupadas com os limites do aprendizado do outro, os termos por meio dos quais duas subjetividades travam um idioma em comum. Os inúmeros perfis de músicos, agora aproximados no livro, tornam-se uma reflexão de como, por meio de suas letras, da forma como cantam e dançam, inventam subjetividades e comportamentos, a até ritualizam em seus corpos e cadências conflitos de recalque e de legalidade. A maneira como se debruça sobre escândalos de celebridades – Tiger Woods, Ronaldo Fenômeno, Belchior –, que isoladas no jornal adquirem certo humor, reunidas no livro fazem uma soturna radiografia dos conflitos entre privado e público, e sua exploração cínica pela mídia. Quando pensa no juiz de futebol, desvela a desconfiança nacional com a lei; quando suspeita do mural do Facebook, arranca dele sintomas de uma crescente autopromoção esvaziada; ao ler manuais de autoajuda, preconiza o poder do pensamento negativo.

No entanto, o grande personagem de Alta Ajuda é o narrador-intelectual que Bosco tão habilmente constrói. Ele pensa, desconstrói o mundo; mas antes de pensar e desconstruir precisa construir. E ao longo dos artigos reunidos Francisco Bosco vai pincelando, com clareza e propósito, o espaço desse personagem Francisco Bosco. Sua estratégia para escapar da nomeação de seus textos como crônica nasce da defesa de que seu narrador é diferente do narrador-cronista habitual. Ele ama a solidão, e prefere estar na companhia de livros; a bebida, antes da ponte para confraternização na tradição cronística, é mais o motivo pelo qual suporta a companhia das pessoas; casado, ele não está sem sono por um amor perdido e aventuroso solto pela madrugada carioca, já que sua insônia faz com que encontre a companhia de sua única amante de interesse, sua própria voz, que pensa; as diversões mundanas, rueiras, estão na infância e adolescência, e sua saúde é mantida apenas no limite para que torne seu corpo saudável o bastante para estar doente por conta de sua sensibilidade reflexiva. Apesar de ocupar o espaço da crônica no jornal, e de se aparentar muitas vezes com a crônica, o narrador-intelectual de seus artigos é um anticronista por excelência. Toda essa estratégia narrativa tem uma única finalidade: reclamar para o jornal o espaço do filósofo. Seus atalhos furtivos assim são passeios no coração da torre de seu isolamento de onde, alheado por escolha, isolado por vocação, fora do contemporâneo, flerta com graça o leitor e lhe lança uma perturbação semanal.

*Vinicius Jatobá nasceu em 1980. Formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), doutorou-se em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Como crítico literário, colabora atualmente com o jornal O Estado de S. Paulo e com as revistas Bravo! e Carta Capital. Após publicar contos em diversas antologias, foi escolhido pela revista inglesa Granta, em 2012, como um dos 20 melhores escritores jovens brasileiros. Seu primeiro livro de contos, Apenas o vento, será publicado em novembro desse ano pela Editora Bateia. Ainda atua na área de produção de eventos, recentemente assumindo a curadoria-geral do Primeiro Fim de Semana do Livro no Porto, que ocorreu em 2012, no Rio de Janeiro.

 

Afinal, o que é o ensaio?

17-06-2013

Iniciamos uma nova sessão em nosso blog! A proposta é fornecer dicas interessantes de leitura do curador Miguel Conde. Todos convidados a ler (e apreciar) o primeiro post:

Geoff Dyer

por Miguel Conde

O ensaísmo é tema de uma das mesas e da oficina literária da Flip 2013. Dois dos maiores ensaístas contemporâneos, o britânico Geoff Dyer e o americano John Jeremiah Sullivan se encontram para conversar sobre o gênero no domingo à tarde. O mediador do encontro, o escritor e jornalista Paulo Roberto Pires, é editor da mais importante revista de ensaios do país, a “serrote”, do Instituto Moreira Salles, e será também o responsável pelas aulas da oficina. O elenco da festa reúne ainda alguns outros nomes importantes do ensaísmo contemporâneo, do consagrado italiano Roberto Calasso, aos jovens Francisco Bosco e Lila Azam Zanganeh.

Mas de que se fala, afinal, quando falamos em ensaio? O gênero é, por definição, problemático, pois uma de suas premissas é contestar a distinção entre aparência e essência, que organiza qualquer classificação genérica. Quer dizer: uma das ideias fundamentais do ensaio é que seu autor abra mão de fórmulas padrão de escrita para construir um texto que dê conta da singularidade do seu objeto. Aquilo que o ensaio procura dizer é inseparável de sua maneira de dizê-lo. Por que isso faria do ensaio um gênero problemático? É que a própria ideia de gênero pressupõe a identificação de regularidades por detrás das diferenças aparentes – na classificação genérica, as diferenças entre os indivíduos ou espécies são reconduzidas a uma identidade geral. Desse ponto de vista, a diversidade aparente é reunida sob o guarda-chuva de uma essência comum. É exatamente o interesse pela diferença, porém, que define o ensaio e o distingue do pensamento acadêmico. Em vez do conceito geral, que descreve vários casos particulares, o ensaio procura uma expressão única capaz de dizer o seu objeto naquilo que ele tem de mais próprio. Ao fazer isso, ele rejeita a separação entre forma e conteúdo e propõe outra forma de pensar e compreender a própria noção de gênero.

Dois textos publicados recentemente pela imprensa estrangeira ajudam a pensar as manifestações contemporâneos do ensaio, particularmente nos EUA. Ambos reconhecem a dificuldade de definição intrínseca ao gênero, mas procuram construir uma caracterização histórica de seu desenvolvimento que permita pensar o que há de específico naquilo que entendemos hoje por ensaísmo. O mais interessante nos dois textos é o olhar crítico que lançam sobre uma certa voga atual do ensaio, identificando uma certa diluição de seu potencial de pensamento e uma deriva em direção a uma escrita autobiográfica que tende a não se comprometer com nenhum ponto de vista, ou a simplesmente transformar o autor em persona humorística. Como terceira indicação de leitura, como as duas primeiras também em inglês, vale tirar um tempo para acompanhar o raciocínio tipicamente tortuoso, mas fascinante, do filósofo alemão Theodor W. Adorno em seu clássico “O ensaio como forma”.

http://opinionator.blogs.nytimes.com/2013/05/26/the-essayification-of-everything/

http://www.newrepublic.com/article/112307/essay-reality-television-david-sedaris-davy-rothbart

http://artsites.ucsc.edu/faculty/gustafson/film%20223/Adorno-The%20Essay%20As%20Form.pdf

 

Entre inúmeras paredes

17-06-2013

Sophie Calle e Grégoire Bouillier 2009

Sophie Calle e Grégoire Bouillier na Flip 2009

por Laura Assis*

É comum que haja, por parte dos leitores, curiosidade acerca da vida pessoal dos escritores, ligada principalmente a uma busca pela correlação entre fatos reais e ficcionais. Mas, no caso da mesa “Entre quatro paredes” (Flip 2009), mais do que lembrado, o plano íntimo dos acontecimentos foi escancarado, já que era impossível falar das obras de Sophie Calle e Grégoire Bouillier sem tocar em questões particulares.

Em alguns momentos, os convidados, o público e até mesmo o mediador não conseguiam não rir de perguntas inusitadas como “você tem outra versão para o término?”, que apesar de parecerem inadequadas para um debate literário, ali faziam todo sentido.

Foi a primeira vez que o ex-casal se encontrou publicamente. Mas quem esperava um embate, foi surpreendido por uma discussão que, apesar de passar por assuntos íntimos e delicados do passado de ambos, acabou se configurando como mais uma prova de que os limites entre vida e arte nunca são facilmente demarcáveis.

* Laura teve seu texto selecionado a partir da ação que iniciamos em nosso Facebook, no dia 28 de maio. A ideia era que os interessados enviassem relatos da melhor discussão literária que já presenciaram na Flip. Os outros textos escolhidos serão publicados no blog ao longo do mês.

 

  Realização
  Associação Casa Azul