flip Casa Azul Patrocínio FLIP 2010
Flipinha Flipzona Casa da Cultura  
Paraty International
Literary Festival
2010
from august 4, wednesday
until august 8, sunday

Fim de Partida

agosto 8, 2010 por dbenevides
“Precisamos radicalizar as ideias de Gilberto Freyre.” A proposta do antropólogo Hermano Vianna mostrou como a obra do autor de Casa Grande e Senzala pode ser atual – inclusive em relação às questões de urbanismo e cidadania discutidas na mesa anterior, a mesa Zé Kléber. Ao seu lado, o grande historiador Peter Burke e o sociólogo José de Souza Martins pareciam partilhar da mesma opinião. Martins, numa participação memorável, fez vários comentários curiosos, como “Gilberto Freyre faz uma sociologia quase de ficção, pois ele incorpora o imaginário aos seus textos”.

Na mesa das “musas”, João Paulo Cuenca soube apontar vários aspectos comuns nos livros de Carola Saavedra e Wendy Guerra. Esta chegou a dizer que poderia ser um personagem de Paisagem com Dromedário, o novo romance de Carola. Ambas falaram de sua relação com a arte em geral e a linguagem em particular. “O que nos resta é contar de novo a mesma história, mas de formas diferentes”, disse Carola. Para Wendy, que comparou Che e Fidel a músicos de jazz, é preciso encontrar novos caminhos, “para não aborrecer os leitores”.

Wendy Guerra, personagem real de ficção



Benjamin Moser, o celebrado autor de Clarice,, causou um pequeno tumulto na mesa seguinte, ao declarar que defende Paulo Coelho: “é o segundo autor mais lido no mundo – os brasileiros não deviam se envergonhar disso”. Mas também conquistou a plateia com uma apaixonada defesa da literatura brasileira. O estudioso e tradutor alemão Berthod Zilly mostrou entusismo igual, e lembrou que a cultura brasileira sempre despertou enoprme interesse na Alemanha. Os dois se disseram encantados com nossa língua – Zilly chegou a dizer: “Essa relação de erotismo com a língua portuguesa não é por acaso: a língua portuguesa te dá carinho.”

E carinho pela língua – não só a portuguesa, foi o que manisfestaram vários autores na mesa de encerramento, ao lerem seu livros “de cabeceira”. Beatriz Bracher escolheu Angústia, de Graciliano Ramos; William Kennedy ficou com um conto de The Nick Adams Stories, de Hemingway – o qual leu como narrador cinematográfico;  Pauline Melville, por sua vez, leu com sutil inflexão teatral um trecho de Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville; o autor de Pornopopéia, Reinaldo Moraes, preferiu o divertido Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida; ao passo que Abraham Yehoshua, depois de uma introdução luminadora, recitou o começo de O Som e a Fúria. De Faulkner. Para encerrar, a anfitriã Liz Calder pediu que Azar Nafisi lesse seus favoritos. E ela escolheu ler poemas breves de escritores iranianos que lutaram, com sua arte, pela liberdade.
Liz, Azar, Abraham, Lionel, Reinaldo, Pauline, William e Beatriz


(os desenhos são de Alexandre Benoit)

Sobremesa: Colum McCann

agosto 8, 2010 por Equipe de comunicação da FLIP

Sobremesa: Terry Eagleton

agosto 8, 2010 por Equipe de comunicação da FLIP

A invenção da Vida

agosto 8, 2010 por dbenevides
O dia esquentou na Flip. Primeiro com a verve ácida e original de Terry Eagleton, depois com a emoção provocada por Ferreira Gullar, e por fim com a expectativa febril em torno de Robert Crumb. E ainda teve a poesia brilhante de Drummond, sempre surpreendente, e a prosa “larger than life” de Colum McCann e William Kennedy.

Ferreira Gullar



Gullar arrebatou a platéia. Foi um verdadeiro showman, com gestos largos, olhar faiscante e puro magnetismo. “A arte existe porque a vida só não basta”. “A poesia é a descoberta e a invenção da vida”. Frases como essas foram aplaudidas com entusiasmo enorme pela platéia. Gullar falou de sua carreira, auxiliado pelo mediador Samuel Titan Jr.E foi tirando do bolso uma anedota melhor do que a outra, sempre com alguma lição existencial embutida. Falou de suas experiências com o neoconcretismo, do início parnasiano, da forte militância política, e de pintura. Leu trecho de seu Poema Sujo, quando foi ovacionado, e também trechos do novo Em Alguma Parte Alguma. E falou, com seu jeito jovial, divertido, sobre a origem de tudo: “Como pode haver a explosão do Big Bang, se antes não havia nada? Nada não explode, ora.” Gullar também participou, duas horas antes, da bela leitura conjunta do livro Alguma Poesia de Drummond, que juntou ainda os poetas Eucanaã Ferraz, Chacal e Antonio Cícero.

Crumb distribui autógrafos



A origem da vida também é um assunto que cativou outro grande convidado da Flip, mas de maneira bem diferente, através da…Bíblia! Robert Crumb subiu ao palco com o amigo Gilbert Shelton e colocou a mão sobre os olhos, ao mesmo tempo fazendo graça e tentando entender o que aquela multidão estava fazendo ali. Falou então de seu Gênesis, de como pensou inicialmente em fazer uma sátira e como logo percebeu que as histórias eram tão estranhas que poderiam ser ilustradas literalmente. Curiosamente, disse que ao lançar o livro, foi mais atacado por seus antigos fãs do que pela direita religiosa.  Meio tímido, Shelton falou pouco. Disse que fez ilustrações para jornais de esquerda, porque eram muito chatos. Crumb, por sua vez, parecia estar se divertindo, se jogava para trás na cadeira, espalhafatosamente, e deu um ou dois gritos. Sua mulher, Aline Kominky-Crumb juntou-se à conversa e entregou alguns segredos do casal. Como não podia deixar de ser, o assunto bundas veio à tona. Crumb, um fervoroso devoto dessa parte da anatomia, disse estar bem atento às brasileiras.

Terry Eagleton, em dois momentos



Na primeira mesa do dia, um dinâmico Eagleton acordou todo mundo com sua argumentação tão lógica quanto desconcertante. Como o esperado, criticou a posição de Richard Dawkins e Christopher Hitchens, os quais, para ele, não entendem o sentido das religiões. Ateu como seus adversários intelectuais, Eagleton acredita que o 11 de setembro colocou Deus de novo em evidência, e que é preciso saber separar os radicais dos religiosos comuns. Para ele, a forma como Dawkins e cia atacam o fundamentalismo islâmico é muito próxima da islamofobia. Irônico o tempo inteiro, chegou a dizer que o futebol é o ópio do povo (mas se retratou, rindo) e deu uma breve e curiosa aula de marxismo. Foi das mesas mais interessantes da Festa, deixando muita gente com o que pensar.

Iralndês como Eagleton, e com um livro também ligado ao mencionado 11 de setembro, Colum McCann conversou com o descendente de irlandeses William Kennedy. Amigos há algum tempo, discorreram sobre os pontos comuns de seus livros, que não raro contam histórias de personagens à margem da sociedade. Kennedy falou bastante do festejado Ironweed e da adaptação feita para o cinema juntamente com Hector Babenco, e McCann contou de suas pesquisas no submundo do Bronx, com protsitutas, viciados e policiais, para compor o amplo quadro de seu livro mais recente, Deixe o Grande Mundo Girar, merecidamente vencedor do National Book Award, nos EUA.

Amanhã tem mais. Ah, os belos desenhos são de Alexandre Benoit!

Sobremesa: Azar Nafisi

agosto 7, 2010 por Equipe de comunicação da FLIP

Sobremesa: A. B. Yehoshua

agosto 7, 2010 por Equipe de comunicação da FLIP

Sobremesa: Alberto da Costa e Silva

agosto 7, 2010 por Equipe de comunicação da FLIP

Sobremesa: William Boyd

agosto 7, 2010 por Equipe de comunicação da FLIP

A hora do Rushdie

agosto 7, 2010 por dbenevides

Moacyr Scliar, Azar Nafisi e Abraham B. Yehoshua (desenho de Alexandre Benoit)



Dia de sol em Paraty. Foi também o dia da mesa mais aplaudida até agora na Flip. A iraniana Azar Nafisi e o israelense Abraham Yehoshua, mediados por Moacyr Scliar, promoveram momentos  intensos, alternando entusiasmo e indignação. Logo de cara Nafisi conquistou a plateia com sua simpatia, rindo alto com o trocadilho feito com seu nome. Yehoshua não ficou atrás e surpreendeu o público ao ler um trecho de seu livro em hebraico, sublinhando dramaticamente o erres carregados da língua. Autora de Lendo Lolita em Teerã, Nafisi defendeu a liberdade e a militância: “Assim que sabemos a verdade, não podemos ficar em silêncio”. Já o escritor de Fogo Amigo voltou-se às questões morais, elemento que considera fundamental na grande literatura. Ao final, e sempre muito aplaudidos, ambos responderam perguntas de cunho político. Nafisi condenou o governo do Irã pelas prisões políticas e execuções de mulheres por prostituição e adultério. Disse ser contra o uso da burka na França, mas acha que o país marginaliza os imigrantes muçulmanos, e que seria necessário, antes de estabelecer uma proibição, promover um debate nacional. Yehoshua, por sua vez, ainda que preferisse falar sobre literatura, entrou nas questões palestino-israelenses e defendeu que os judeus vivam em Israel e não espalhados pelo mundo.

Outro que disse preferir falar de literatura foi Salman Rushdie: “Não vim aqui falar de questões terríveis, vim falar de um livro infantil”, disse, referindo-se a Luka e o Fogo da Vida, que está sendo lançado agora no Brasil. O livro foi inspirado por seu filho menor, que estava na platéia e foi apresentado pelo pai ao público. ”As questões terríveis” mencionadas acima eram, claro, relacionadas à fatwa, sentença de morte proferida pelo governo iraniano por causa das “blasfêmias” contidas em seu livro Os Versos Satânicos. Rushdie revelou que está escrevendo um livro sobre o tempo em que teve de se refugiar para não ser morto. No final, num dos momentos mais engraçados, quando perguntado pelo mediador Silio Boccanera qual era seu segredo para conquistar belas mulheres, respondeu: “Se eu dissesse, não seria mais segredo”. Rushdie também entrou na questão do futuro do livro impresso, o qual defendeu: “Sua bateria não acaba, você pode ler no banho, levar para a praia e , se deixar cair, não perde os dados”.

Esse foi o assunto principal da primeira mesa do dia, reunindo o historiador Robert Darnton e John Makinson, CEO da Penguin. Darnton foi muito aplaudido ao entrar no assunto do Google, que pretende digitalizar todas as obras das bibliotecas públicas nos EUA. Disse admirar o Google por vários motivos, mas desconfia do monopólio do acesso ao conhecimento que pode significar uma ação desse porte. Para ele, o conhecimento deve ser um bem público e não um produto comercial – conceito que ele chama de República das Letras.  Makinson tratou de temas específicos relacionados à industria do livro. Animado com as possibilidades dos novos meios e suportes, falou de experiências da Penguin com escrita colaborativa e de projetos para incrementar livros infantis e técnicos com sons e imagens. Falou também da importância de se garantir os direitos autorais dos escritores.  

O tropeço do livro impresso (desenho de Alexandre Benoit)



E o que Gilberto Freyre diria disso tudo?  A segunda mesa mostrou um lado menos conhecido do grande antropólogo, sociólogo e escritor, a partir de livos menos comentados de sua obra. O diplomata e poeta Alberto da Costa e Silva discorreu sobre o livro Nordeste, exaltando os aspectos de crítica social e seu lado subversivo. Maria Lúcia Pallares-Burke escolheu falar de Os Ingleses no Brasil, dizendo tratar-se do livro de um apaixonado, de alguém que admirava profundamente a cultura britânica. Por fim, Angela Alonso destacou Ordem e Progresso, comentando a nostalgia de Freyre pelo sistema patriarcal.

Depois do almoço, vieram os autores do chamado estilo pós-colonial. Pauline Melville nasceu e viveu boa parte da vida na Guiana, ao passo que William Boyd nasceu em Gana, de pais escoceses. Ambos colocam a experiência de ser um estranho na própria terra em seu livros. A diferença é que Melville, como ela mesma disse, parte de situações que ela conhece bem, e Boyd prefere pesquisar exaustivamente assuntos que não conhece nada para seus livros, que muitas vezes incluem cenários exóticos e profissões extravagantes. Num momento de intensidade evocativa, Melville descreveu o ataque que sofreu de um psicopata, e o fez com seu grande talento de atriz – ela trabalhou em vários filmes e peças de teatro. Boyd, por sua vez, deu uma verdadeira aula de literatura, ao explicar ao público quais eram os sete tipos de contos possíveis.

Grande dia.

Escrever é um fracasso

agosto 6, 2010 por dbenevides

Julio Villanueva Chang



Texto e desenhos de Alexandre Benoit



Relatando trechos de perfis que escreveu, com breves leituras de um calhamaço de mais de 200 páginas, Julio Villanueva Chang conduziu com entusiasmo o primeiro encontro da Oficina Literária deste ano.  Já nos primeiros minutos disparou sua visão cortante do perfil literário: “escrever sempre é um fracasso”, mas suas palavras, longe de desanimar os participantes, soaram mais como provocações estimulantes. Prova disso é que a apostila que distribuiu, intitulada  De perto nada é estranho, é uma interessante mistura de textos banais, acidentes jornalísticos, histórias em quadrinhos e famosos perfis literários. Todo esse material foi habilmente trabalhado por Villanueva, que ia dando, aos poucos, a cara de sua oficina.

Para escrever um grande perfil, acredita Villanueva, é preciso ser “observador, curioso, atencioso e paciente”, pois só assim o escritor sabe  reconhecer e descobrir em coisas aparentemente banais as pistas que farão do texto mais do que uma mera descrição: “uma coisa é falar sobre o mistério, outra coisa é transmitir a sensação do mistério”.

O editor de Etiqueta Negra falou sobre ainda a importância desse gênero nos tempos da internet. Se antes havia o problema de prender a atenção do leitor, hoje, com celulares, internet, blogs, uma descrição emocionante se destaca muito mais do que um relato noticioso.

Quando o tempo já estava estourando, Villanueva retomou seu raciocínio inicial, sobre o laborioso percurso do escritor de perfis. “Meu objetivo é fazer com que vocês tenham vergonha do que escrevem. Se eu fizer com que sete de vocês descubram essa sensação, eu me sentirei o homem mais rico do mundo”concluiu Villanueva.
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