A Folha de hoje traz uma matéria sobre a Flip que merece comentário. O argumento principal é o de que a ficção perdeu espaço na festa para artistas de outras áreas. E de que os convidados que não são propriamente ficcionistas representam uma estratégia da curadoria para mascarar a falta de “estrelas” do mundo da ficção, que teriam em Lobo Antunes o único representante este ano.
Ok, ok. O objetivo dos repórteres é manter a imagem de distanciamento crítico cultivada pelo jornal e suscitar respostas como esta. Mas é justamente por isso que achei que valia morder a isca e fazer um post a respeito.
Como já comentei neste blog em texto justamente sobre a Ilustrada (50 anos em 5), acho ótimo que a Flip seja alvo de críticas e estimule o debate em torno das carências e contradições do meio literário e artístico no Brasil.
O problema é que de novo me parece que as provocações chegam por vias tortas – e ficam muito aquém da consistência crítica que se poderia esperar de um jornalismo feito com seriedade.
Nem acho que valha perder muito espaço para rebater os argumentos. Pelos critérios da matéria, por exemplo, Chico Buarque não é um escritor com méritos literários independentes, mas “um cantor”. Quando saiu Leite derramado, há uns três meses, não parecia essa a opinião do caderno, que dedicou páginas e páginas ao livro, além de uma resenha alentada da lavra de um dos principais críticos literários brasileiros.
Tampouco acredito que os repórteres vejam consistência no argumento de que autores da não-ficção como Richard Dawkins e Gay Talese venham mascarar a falta de estrelas literárias. Como se autores com esse perfil não fossem convidados desde a primeira Flip. Como se eles mesmos não fossem “estrelas” dignas de cacifar o evento. Como se fosse mais fácil obter o sim de autores como Dawkins em pleno ano Darwin do que de um ficcionista “do porte de um Salman Rushdie”.
De novo, a profundidade da crítica é aquela que uma formiga atravessa com água nas canelas. Tudo se resume a contar estrelinhas. Na matéria do ano passado, o ponto era a falta de celebridades no evento. Na deste ano, a falta de celebridades literárias. E a crítica pára por aí: na contagem dos troféus.
As questões mais relevantes suscitadas pela Flip continuam sem resposta. Por que, afinal, tanta gente se abala até Paraty para ouvir escritores e intelectuais? Num país em que a tiragem média de um livro é 3 mil exemplares, o que leva quase 20 mil pessoas a pegar a estrada e assistir a leituras e palestras que em outro contexto poderiam estar vazias? Qual a especificidade de um evento capaz de unificar motivações tão diversas quanto as de escritores, banqueiros e artistas de tevê?
Sem falar na questão principal: já que os jornalistas consideram que a literatura não está bem representada este ano, qual é mesmo o papel da literatura no debate intelectual hoje em dia? Será que está apenas nesse âmbito o que vale a pena da produção de conhecimento? Parece que nada disso merece discussão. Seguimos comparando estrelinhas.
Algumas raras matérias parecem se preocupar com isso. Por justiça, cito uma desta semana, do Valor Econômico. A crítica é talvez até mais contundente, mas muito mais frutífera.
O pior de tudo é a desconsideração pelos escritores brasileiros. Como se Cristovão Tezza, Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, Rodrigo Lacerda, Sergio Rodrigues, Tatiana Salem Levy, Arnaldo Bloch, Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz, Angélica Freitas, Davi Arrigucci Jr, Chico Buarque e até o homenageado Manuel Bandeira não fossem representativos de literatura digna do nome.
Os repórteres miram na curadoria da Flip, mas acabam acertando nesses autores também.
É possível que eu esteja levando a sério demais uma provocação que não mereceria mais que os habituais esgares de enfado. Mas a Ilustrada teve um papel importante para que a Flip pudesse se tornar o que se tornou — não me parece descabido esperar de seus repórteres mais que a capacidade de contar troféus.
Ok, ok. O objetivo dos repórteres é manter a imagem de distanciamento crítico cultivada pelo jornal e suscitar respostas como esta. Mas é justamente por isso que achei que valia morder a isca e fazer um post a respeito.
Como já comentei neste blog em texto justamente sobre a Ilustrada (50 anos em 5), acho ótimo que a Flip seja alvo de críticas e estimule o debate em torno das carências e contradições do meio literário e artístico no Brasil.
O problema é que de novo me parece que as provocações chegam por vias tortas – e ficam muito aquém da consistência crítica que se poderia esperar de um jornalismo feito com seriedade.
Nem acho que valha perder muito espaço para rebater os argumentos. Pelos critérios da matéria, por exemplo, Chico Buarque não é um escritor com méritos literários independentes, mas “um cantor”. Quando saiu Leite derramado, há uns três meses, não parecia essa a opinião do caderno, que dedicou páginas e páginas ao livro, além de uma resenha alentada da lavra de um dos principais críticos literários brasileiros.
Tampouco acredito que os repórteres vejam consistência no argumento de que autores da não-ficção como Richard Dawkins e Gay Talese venham mascarar a falta de estrelas literárias. Como se autores com esse perfil não fossem convidados desde a primeira Flip. Como se eles mesmos não fossem “estrelas” dignas de cacifar o evento. Como se fosse mais fácil obter o sim de autores como Dawkins em pleno ano Darwin do que de um ficcionista “do porte de um Salman Rushdie”.
De novo, a profundidade da crítica é aquela que uma formiga atravessa com água nas canelas. Tudo se resume a contar estrelinhas. Na matéria do ano passado, o ponto era a falta de celebridades no evento. Na deste ano, a falta de celebridades literárias. E a crítica pára por aí: na contagem dos troféus.
As questões mais relevantes suscitadas pela Flip continuam sem resposta. Por que, afinal, tanta gente se abala até Paraty para ouvir escritores e intelectuais? Num país em que a tiragem média de um livro é 3 mil exemplares, o que leva quase 20 mil pessoas a pegar a estrada e assistir a leituras e palestras que em outro contexto poderiam estar vazias? Qual a especificidade de um evento capaz de unificar motivações tão diversas quanto as de escritores, banqueiros e artistas de tevê?
Sem falar na questão principal: já que os jornalistas consideram que a literatura não está bem representada este ano, qual é mesmo o papel da literatura no debate intelectual hoje em dia? Será que está apenas nesse âmbito o que vale a pena da produção de conhecimento? Parece que nada disso merece discussão. Seguimos comparando estrelinhas.
Algumas raras matérias parecem se preocupar com isso. Por justiça, cito uma desta semana, do Valor Econômico. A crítica é talvez até mais contundente, mas muito mais frutífera.
O pior de tudo é a desconsideração pelos escritores brasileiros. Como se Cristovão Tezza, Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, Rodrigo Lacerda, Sergio Rodrigues, Tatiana Salem Levy, Arnaldo Bloch, Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz, Angélica Freitas, Davi Arrigucci Jr, Chico Buarque e até o homenageado Manuel Bandeira não fossem representativos de literatura digna do nome.
Os repórteres miram na curadoria da Flip, mas acabam acertando nesses autores também.
É possível que eu esteja levando a sério demais uma provocação que não mereceria mais que os habituais esgares de enfado. Mas a Ilustrada teve um papel importante para que a Flip pudesse se tornar o que se tornou — não me parece descabido esperar de seus repórteres mais que a capacidade de contar troféus.



junho 27, 2009 às 8:28 pm |
Gostei do seu ponto, Flavio. Estava até aqui escrevendo, aliás, num post sobre a cobertura que vou fazer da Flip: acho que maior mérito da Flip é salvar a literatura do ranço acadêmico e do gueto intelectual em que ela se enfiou no Brasil. Parabéns aí pela curadoria.
junho 28, 2009 às 1:39 am |
“As questões mais relevantes suscitadas pela Flip continuam sem resposta. Por que, afinal, tanta gente se abala até Paraty para ouvir escritores e intelectuais? Num país em que a tiragem média de um livro é 3 mil exemplares, o que leva quase 20 mil pessoas a pegar a estrada e assistir a leituras e palestras que em outro contexto poderiam estar vazias? Qual a especificidade de um evento capaz de unificar motivações tão diversas quanto às de escritores, banqueiros e artistas de tevê?”
Resposta de quem já foi três vezes à Paraty: o F da Flip é de FESTA. Logo, as pessoas vão a Paraty para beber, comer, fumar, fuder e todos os outros verbos que se conjugam nesse tipo de situação. Uns 10 a 20% talvez vão, realmente, para ver as palestras, mas a grande maioria das pessoas vai mesmo é pra VER e SER VISTO – no bom e no mau sentido.
O que realmente importa é que Flip em geral é divertido, basicamente porque é uma das raras oportunidades em que milhares de pessoas que AINDA gostam de livros podem encontrar outras pessoas que compartilham desse interesse – e, no interim, comer, beber, fumar e fuder com elas.
junho 28, 2009 às 3:35 am |
Estou devendo uma visita à Flip. Mas acho que terá de ficar para o ano que vem…
Em breve publicarei um link para este artigo no Livros e Afins. Já compartilhei no Google Reader e no Twitter.
Abraços!
junho 28, 2009 às 4:01 am |
[...] na Categoria Dicas de sites sobre livros e outras coisas | Sem Comentários » Contando estrelinhas – Como avaliar a Flip pelo critério erradoRare Book Room – Encontre livros raros em [...]
junho 28, 2009 às 9:33 am |
Interessante pensar que enquanto uma parte da imprensa está “contando estrelinhas” essa mesma parte esquece de ler entrelinhas. E boa parte do que diferencia um bom leitor de um analfabeto funcional é isso: a capacidade de ler entrelinhas. Não quero crer que os jornalistas da Ilustrada sejam analfabetos funcionais, mas eles bem que poderiam exercitar mais a capacidade de ler entrelinhas. Quem sabe a simples habilidade de ler – Milton Hatoum, Chico Buarque, Manuel Bandeira – já fosse suficiente.
Um grande abraço
junho 28, 2009 às 11:43 am |
Penso que o público que comparece à FLIP não vai em busca apenas de ficção; Eric Hobsbawm, por exemplo, participou da 1ª edição do evento, e sua escolha foi elogiada pela imprensa na época…
junho 28, 2009 às 10:20 pm |
Não li a matéria e acho que o cast de autores está ótimo. Mas confesso que me tocou a nota no Idéias (JB), de que esqueceram grandes poetas velhinhos que foram amigos pessoais do Bandeira: Lêdo Ivo e Thiago de Mello.
Acho que a FLIP, em edições futuras, pode convidar e honrar a obra e a pessoa de grandes escritores brasileiros que não estão “na moda”, mas que têm imenso valor e que em breve, pela ordem natural das coisas, irão nos deixar.
junho 29, 2009 às 1:57 pm |
A Folha nos últimos anos vem tentando, desesperadamente, sobreviver a todo custo dentre os meios de comunicação, por isso, eles tem atirado pra tudo quanto é lado, porém, frequentemente esses tiros acertam seus próprios pés. Agora se a Flip fizer uma ampla divulgação em seus cadernos, receberá um tratamento diferenciado (para o bem (?)).
junho 29, 2009 às 10:15 pm |
Acredito que a Flip se propõe a ser um evento de caráter multidisciplinar,
onde podemos ver a literatura dialogando com diversas áreas. Isso, na verdade,
é um dos aspectos que mais me encantam no evento. A ortodoxia, na minha opinião, é sempre abominável.
junho 29, 2009 às 11:45 pm |
Com a Folha eu concordo em parte, afinal: você deixou de fora Marcelino Freire, que lançou o Rassif; e até Hiago Rodrigues Reis de Queirós, que publica em inglês e espanhol, além de só nesse ano já ter lançado três livros. Acho que faltam ícones brasileiros porque uma mídia fica esperando que a outra apresente o autor.
Citação sua: “A ortodoxia, na minha opinião, é sempre abominável.”, mas todos os nomes brasileiros já estão gastos; foram noticiados aqui e discutidos ali, mas não por “serem escritores” (o que forma um ícone), mas sim por lançarem alguma obra com alguma relevância. Um ícone é mais famoso do que uma de suas obras; é conhecido por sua característica própria. Por isso ultimamente temos visto muitos best sellers, mas nenhum imortal: estamos quase como a música, que lança um determinado artista e dpois nunca mais dele se ouve falar.
Chico Buarque escreve bem, mas é um ícone da música. Marcelino e Hiago são da literatura.
julho 3, 2009 às 1:36 am |
Elizabete, o Marcelino está aqui, na FLIP.
Vamos estar na Flap também… não sei se juntos. rsrsr