Falcatruas, mamatas, narrativas míticas, literatura e música foram tema da conversa entre Chico Buarque e Milton Hatoum, na mesa 10 da FLIP 2009. Como se esperava, “Sequências brasileiras”, foi a mesa literária mais concorrida deste ano, até o momento. O blog da FLIP acompanhou a conversa de fora da Tenda do Telão, no início da noite de sexta, nas ruas lotadas de Paraty.
Chico Buarque e Milton Hatoum contaram como conceberam seus relatos mais recentes: o romance Leite derramado e a novela Órfãos do Eldorado, respectivamente.
O livro de Chico é narrado por Eulálio, um homem centenário que relembra os tempos de glória de sua família quatrocentona, inclusive algumas falcatruas, como a de um deputado paulista que ganhou uma “mamata”: a concessão para construir o porto de Manaus. “São histórias reais, que ouvi contar por gente conhecida minha.” O fato de ser filho do historiador Sergio Buarque pode ter ajudado na composição da história. “Papai gostava de contar muitas histórias e gostava muito de fofoca. “Reunia os amigos e contava coisas escabrosas”. O romance tem como protagonista e narrador esse membro de uma família da elite brasileira, que se denuncia no próprio relato.

Milton Hatoum também foi buscar na história inspiração para sua novela. Mas a narrativa de Arminto Cordovil esbarra não só em episódios históricos, mas também no mito de Eldorado, a rica e mítica cidade perdida no fundo de um rio. Milton contou que sua pesquisa histórica, feita para compor a história, resultou em material farto a respeito das falcatruas brasileiras. Indagado se sentia um escritor regional, disse que sim, com orgulho. Sou tão regional que me torno universal. Num mundo globalizado como o de hoje, sem chão histórico, ser regional é motivo de orgulho.”
Comentando algumas semelhanças sobre os dois livros, os dois escritores disseram, em tom de piada, que haviam copiado uma ao outro. Os autores comentaram ainda a concisão de suas obras, e outros escritores de que gostam, como Guimarães Rosa. Chico comentou ainda que prefere ler a escrever. “Escrever é chatíssimo”, disse ele. “Durante o tempo que eu escrevia o livro, todo dia relia o texto inteiro”. Comentou também a dificuldade de se livrar dos livros anteriores. “Os narradores permanecem na minha cabeça”. E falou também sobre a relação entre música e literatura. “Tenho necessidade de sentir musicalmente cada frase. Se o que escrevo não estiver cantável, jogo fora”.
Ao final da mesa, Chico se pronunciou a favor das comunidades quilombolas, indígenas e caiçaras, que fizeram manifestação pelas ruas de Paraty nesta sexta.
Veja em breve trechos da conversa entre os dois escritores.
Etiquetas: Chico Buarque, Milton Hatoum



julho 6, 2009 às 3:18 pm |
Sem dúvida, foi uma das melhores mesas do evento. E muito contribuiu para isso o mediador da conversa, que não se deixou levar por curiosidades particulares diante dos autores que admira, como aconteceu em pelo menos duas outras mesas posteriores, fazendo com que o debate não atingisse a magnitude que poderia.
julho 13, 2009 às 2:56 pm |
Concordo inteiramente com o “Beto” acima. A mediação foi perfeita e deu o clima descontrído de toda a entrevista. parecia uma conversa de calçada em fim de tarde paratiense! Parabéns Samuel Titan Jr
Maria lyra