Logo após os lixeiros terem varrido as ruas do centro histórico (em Parati, isso é uma operação complicada), o domingo de São Pedro começou como uma sessão diferente de todas as demais na Tenda dos Autores. Nada tinha a ver com literatura, mas dizia respeito diretamente à própria FLIP. Era um painel, com quatro convidados, no qual se discutiu “como a cultura desenha a cidade”. Ou seja, pretendia-se falar sobre possíveis políticas públicas em favor de Parati, além do que já tem sido feito sob o influxo da FLIP, com base em experiências em curso em outras cidades.
O nome da sessão, “Mesa Zé Kleber”, homenageava um poeta e ativista que viveu em Parati até o seu falecimento, em 1989, e que também está sendo retratado em uma exposição na Casa da Cultura. O evento da manhã de domingo, que teve a mediação da antropóloga Paula Miraglia, pesquisadora sobre violência urbana, contou com as presenças de Jorge Melguizo Posada, secretário do desenvolvimento social da cidade colombiana de Medellín; de Denis Mizne, do Instituto Sou da Paz; e de Carlos Augusto Calil, secretário municipal da cultura de São Paulo.
“A pessoas têm fome de cultura”, afirmou Calil. “Há uma demanda reprimida no Brasil.” Para ilustrar essa ideia, ele contou da revolta de uma moradora de um bairro periférico, anos atrás, que queria mas não pôde devolver um livro e pegar outro na biblioteca circulante instalada em um ônibus que circulava pela cidade. Era o único veículo que de que a prefeitura dispunha para isso, na época, e tinha trinta anos de uso. Naquele dia, quebrou. E aquela moradora, indignada, acabou dando um depoimento à televisão e, com isso, mobilizou a prefeitura para expandir o serviço. Hoje já são quatro ônibus-biblioteca, mas Calil quer mais, acha que isso ainda é pouco para o tamanho de São Paulo.
Melguizo, de sua parte, vem de uma cidade de 2,3 milhões de habitantes (3,5 milhões na área metropolitana) que já foi considerada uma das mais violentas do mundo. A trágica situação de Medellín começou a mudar a partir de um projeto que previa a construção de bibliotecas e complexos esportivos nos bairros mais problemáticos. Segundo dados fornecidos por Melguizo, o percentual do orçamento público dedicado à cultura passou, desde cinco anos atrás, de 0,6% para 5%. São instalações amplas e modernas, em áreas que equivalem às favelas brasileiras. As bibliotecas abrem fecham apenas dois dias por ano. O governo municipal equipara as atividades ligadas à área cultural ao serviços básicos como por exemplo os de saúde, segurança e recolhimento do lixo.
Já Mizne defende a ação cultural como uma maneira de integrar os diversos públicos que compõem uma população urbana. Ele critica o modelo compartimentado que hoje existe nas metrópoles. “As formas de cultura que surgem nas periferias ainda ficam presas dentro de um gueto. Vivemos em vilazinhas medievais, sempre em busca de pessoas que são parecidas conosco.” |