Festa Literária
Internacional de Paraty
2010
de 4 a 8 de agosto
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Extra! Aberta a caixa-preta de Manuel Bandeira
A penúltima mesa da FLIP, no final do domingo, foi de ótima prosa entremeada de poesia. O professor pernambucano Edson Nery da Fonseca, que sabe de cor os poemas de Manuel Bandeira, recitou vários. Com estilo e vozeirão. O jornalista mineiro Zuenir Ventura não tem memória suficiente para tanto, mas leu o famoso Pneumotórax com visível satisfação. E o mediador Humberto Werneck, com habilidade e bom humor, costurou as leituras e os depoimentos, aproveitando as lembranças que ambos os convidados guardavam de sua convivência com o poeta.
“Desde menino eu decoro poemas”, revelou Fonseca. “Exprimo minhas tristezas e minhas alegrias com a poesia dos outros, já que sou um escritor de prosa”. Ele disse também que é homem religioso e costuma freqüentar igrejas, porém tem uma particularidade: em vez de fazer orações, costuma recitar poemas. E, ontem, na missa a que assistiu em Parati, fez uma evocação a Bandeira.
Outro fato saboroso contado por Fonseca refere-se a uma das primeiras visitas que fez ao poeta, quando ambos, embora sendo de Recife, já viviam no Rio de Janeiro. Naquela ocasião, ele perguntou a Bandeira por que, em seu famoso poema dedicado à três mulheres do sabonete Araxá, fazia referência a um horário determinado, quatro horas da tarde. E o poeta explicou: esse é o horário do dia em que as mulheres, tendo tomado banho de manhã, estão mais convidativas para o ato sexual, combinando na perfeita medida seus odores corporais e os últimos resquícios do perfume do sabonete. Nada leva a crer, entretanto, que tenha sido este, e não outro, o poema que Fonseca recitou na missa de ontem, à guisa de oração.
Já Zuenir Ventura, um pouco mais jovem do que Fonseca, teve Bandeira como professor no curso de Letras Hispano-Americanas no Rio de Janeiro. Contou que o poeta, apesar de míope, dentuço e continuamente castigado pela tuberculose contraída aos 18 anos, era vaidoso, gostava de ser fotografado e fazia sucesso entre as alunas da escola. Cogitou até na possibilidade de que algumas delas conhecessem seu diminuto e penumbroso apartamento cheio de livros, no Edifício São Miguel. Na escola,as moças cantavam para ele, segundo Zuenir Ventura, algo do seguinte teor: “Olê, Mané Bandeira / Olé, Mane Bandá / Tu me ensina a fazê verso / Que eu te ensino a namorá”. O resto, bem, só com sabonete Araxá.
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