A primeira mesa convencional da FLIP, na manhã da quinta-feira, demonstrou a flexibilidade que o evento vem adquirindo nas suas últimas edições. Em vez de escritores, estavam no palco quatro jovens quadrinistas que tratam seus desenhos com o mesmo cuidado e o mesmo sentido autoral que os melhores escritores dedicam à literatura.
Na Tenda dos Autores, Rafael Coutinho, Fábio Moon, Gabriel Ba e Rafael Grampá interpretaram histórias curtas de sua autoria, ou trechos delas, projetadas nos telões (sem balões de leitura) para que o público as acompanhasse. Depois falaram de suas carreiras e das perspectivas de sua área de trabalho, com a mediação de Joca Reiners Terron. Os estilos dos artistas são marcadamente diferentes, no traço, na técnica e também na temática, mas em todos os casos o que se viu foram imagens refinadas, urbanas, contemporâneas, e a platéia não deixou de aplaudir cada uma das apresentações.
Coutinho, filho do conhecido quadrinista Laerte, chamou ao palco uma atriz para com ela dividir a interpretação de uma história. Um casal recém-separado se encontra num parque, junto com o filho pequeno, e ali mantém um diálogo sofrido e cheio de reminiscências. Em paralelo, corre uma outra cena, evocada pelo rapaz, na qual ele sustenta uma conversa trivial com um vizinho francês, em seu sítio, num recurso que acentua a dramaticidade do momento. Coutinho falou também das diversas atividades que exerceu (barman, vendedor de CDs etc.) antes de se dedicar à criação de histórias em quadrinhos, com o apoio do pai.
Um caso um pouco diferente foi o do gaúcho Grampá. “Minha mãe quase me matou quando eu decidi fazer quadrinhos”, revelou ele, com bom humor. Para tomar esse rumo, ele precisou abandonar uma promissora e bem remunerada carreira como publicitário, em troca de algo que podia lhe dar um retorno financeiro bem mais baixo. “Eu sempre quis fazer quadrinhos, mas não queria desenhar super-heróis”, conta Grampá. E isto, por certo, não seria o melhor caminho para ficar rico.
Dos quatro quadrinistas convidados para essa sessão, Grampá foi aquele que abordou de maneira mais incisiva um dos temas recorrentes em seu área de atuação – uma possível relação paritária com os escritores de texto. “Sempre me perguntam se quero ganhar status aproximando-me da literatura”, diz ele. “Mas eu não me preocupo com isso. Sou um hedonista. Faço quadrinhos porque gosto.”
Já Fábio Moon, que trabalhando em parceria com Gabriel Bá já conseguiu espaço no mercado americano de histórias em quadrinhos, lembrou dos tempos em que ambos batalhavam, no Brasil, para fazer seu trabalho aparecer aos olhos do público. “Fazíamos um fanzine por semana colocando gente da faculdade como personagem em nossas histórias de ficção. Era preciso muita cara-de-pau. A gente publicou muito aqui antes de ir para lá.” Gabriel completa: “Se você não está publicando todo dia no jornal, o público te esquece”.
Perguntado por Terron, Fábio explicou por que, na sua opinião, a indústria cinematográfica tem se interessado cada vez mais pelas histórias em quadrinhos. “Desde muito tempo o cinema busca na literatura obras que possa ser adaptadas para as telas”, comparou. “Se agora volta os olhos para os quadrinhos, é porque, neste caso, o produto tem um aspecto visual já testado.”