Nhe’éry, plantas e literatura

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Apresentação institucional 19ª Flip

A pandemia de Covid-19 fez milhões de vítimas, fechando fronteiras, expondo contradições e mudando sociabilidades. O vírus colocou em evidência os problemas e dilemas atuais da humanidade, a começar pela desigualdade socioeconômica e pela destruição acelerada do meio ambiente. Ganha força, assim, a reflexão sobre outras maneiras de estar no mundo. Seria impossível, e imprudente, minimizar a imensa tragédia vivida, desejando neste momento apenas uma volta ao “normal” – que foi uma das causas do problema. É preciso urgentemente imaginar outras formas de vida, sem a centralidade no “humano”, preparando o terreno para evitar o agravamento da crise climática na qual o planeta já vive.

 

A Flip – Festa Literária Internacional de Paraty – coloca-se como uma das plataformas possíveis de lançamento imaginativo neste momento. Ao longo dos anos, a Festa se estabeleceu como um dos principais encontros literários mundiais, local de reunião de multidões criativas de todas as origens. A Flip floresceu em um município que tem parte significativa de seu território ocupada por áreas de proteção socioambiental, em região reconhecida como Patrimônio Mundial Misto da Humanidade pela Unesco, título que por si só instiga a obrigação de nunca separar cultura e natureza. 

 

É a partir dessa perspectiva que a Flip se transforma em laboratório e que busca outras expressões, linguagens, perspectivas e mundos. Olhando a partir de Paraty – sua cidade berço, lugar de encontros das águas com a terra –, buscamos na floresta a inspiração para a Festa deste ano: a diversidade, a colaboração em vez da competição, a capacidade regenerativa, a rede de comunicação estabelecida no ar e na terra entre as raízes das árvores e as hifas dos fungos, as alianças formadas por águas, pedras, plantas, ventos, insetos, pássaros e todos os viventes. Na pandemia, a humanidade reduziu sua mobilidade e experimentou temporalidade menos frenética, que são características mais associadas ao reino vegetal. Chegou a hora de pensar e aprender com as plantas.

 

Nhe’éry (pronuncia-se nheeri) é como o povo Guarani chama a Mata Atlântica, uma denominação que revela a pluriversalidade da floresta. Como explica o cineasta e liderança do povo Guarani Mbya, Carlos Papá, Nhe’éry quer dizer “onde as almas se banham”. Além disso, Nhe’éry também conduz mensagens através de fios de palavras.

 

Com esses fios de palavras, enlaçaremos a literatura, essencial para se pensar o mundo e as relações entre humanos e não humanos. A grande importância das plantas nas obras literárias precisa ser destacada: os buritis de Guimarães Rosa, o Jardim Botânico e as flores de Clarice Lispector, as árvores de Fernando Pessoa, as folhas de Mãe Stella de Oxóssi, a bananeira de Bashô, as palmeiras e matas de Amos Tutuola, o herbário de Emily Dickinson, a polinização cruzada de Waly Salomão, o planeta-floresta de Ursula K. Le Guin, “a floresta e a escola” de Oswald de Andrade, seguindo-se novos fios de palavras de ficcionistas e poetas da contemporaneidade. O texto literário, sob forma de narrativa, poesia ou drama, em registro oral ou escrito, tem dado uma contribuição fundamental para o respeito e a valorização das diferentes formas de vida.

 

Por esse motivo, a Flip, em sua 19ª edição, trabalha pela primeira vez com um coletivo de curadores, uma floresta curatorial.

 

Hermano Vianna, antropólogo de formação, e misturador geral de informações, coordena o trabalho deste coletivo curatorial integrado por Anna Dantes, colaboradora da Escola Viva Huni Kuin há mais de dez anos e uma das fundadoras do Selvagem – Ciclo de estudos sobre a vida; Evando Nascimento, escritor e filósofo, pioneiro na reflexão sobre literatura e plantas no Brasil; João Paulo Lima Barreto, antropólogo do povo Tukano, do Alto Rio Negro, fundador do Centro de Medicina Indígena em Manaus; e Pedro Meira Monteiro, professor da Princeton University e um dos fundadores da oficina Poéticas Amazônicas, no Brazil LAB da Universidade.

 

Com datas marcadas entre 27 de novembro e 5 de dezembro, a Flip quer atuar como um laboratório de aprendizagem dos ensinamentos a partir de Nhe’éry. Buscaremos abrir espaço para refletir sobre as questões da contemporaneidade e a superação de suas crises do ponto de vista artístico, semântico, cognitivo, ambiental, político e socioeconômico. Nesse sentido, a programação vai dialogar com criadores, pensadores e conhecedores que têm se voltado para ancestralidades e outros modelos de organização social e visões diferentes do conhecimento.

 

Na programação geral, as mesas e intervenções videográficas buscarão um formato híbrido, sem presença de público, em um momento ainda delicado da pandemia de Covid-19. Tudo em caráter laboratorial, tudo em construção, tudo na base de experimentações intelectivas e sensoriais. Tudo em busca de novos caminhos que nos conduzam a um mundo mais justo, igualitário, sustentável e criativo. Será então uma Flip em defesa da arte, da vegetação que protege o planeta e, sobretudo, da vida em suas múltiplas configurações. 

 

Homenagem

 

Ainda seguindo as lições de Nhe’éry, no lugar de um(a) escritor(a) homenageado(a), neste ano teremos uma homenagem coletiva, para todo(a)s o(a)s pensadore(a)s/conhecedore(a)s/mestre(a)s indígenas que tiveram suas vidas interrompidas pela Covid-19. Gente de várias florestas do Brasil, gente discípula das plantas. A Flip 2021, inspirada em projetos como o emocionante Memorial Vagalumes, quer cultivar e espalhar suas sabedorias por todo o mundo. Trata-se de pessoas-enciclopédias, bibliotecas vivas que não podem desaparecer. Apenas alguns nomes: Higino Tenório, escritor, benzedor, especialista em arte rupestre, professor e fundador da primeira escola indígena do povo Tuyuka; Feliciano Lana, artista plástico e escritor do povo Desana, conhecido internacionalmente; Zé Yté, colaborador central dos mais importantes estudos sobre a etnobiologia Kayapó; Maria de Lurdes, guardiã das plantas de cura do povo Mura; Meriná, mestra de rituais de cura e benzimentos do povo Macuxi; Alípio Xinuli Irantxe, mestre das flautas do povo Manoki; Domingos Venite, Guarani, líder da maior terra indígena do estado do Rio de Janeiro, militante de novas políticas de saúde indígena. Celebraremos a obra de muitas outras pessoas de vários povos indígenas em nosso Ciclo da Homenagem. Através desses nomes, a Flip também homenageia todas as vítimas da pandemia, entre elas gente de outras sabedorias e narrativas como Nelson Sargento, Aldir Blanc e Zé de Paizinho (mestre do samba de aboio sergipano), ou as poetas Olga Savary e Maria Lúcia Alvim, o poeta Vicente Cecim e o ficcionista Sérgio Sant’Anna.

 

Receita e parcerias

O projeto é apresentado pelo Ministério do Turismo e Associação Casa Azul. Conta com o benefício da Lei Federal de Incentivo à Cultura e Vale+Cultura. Patrocínio oficial do Itaú e Instituto Cultural Vale, e é uma realização da Associação Casa Azul, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo, Governo Federal, Pátria Amada, Brasil.

A direção da Flip estima uma queda significativa de receita, e por isso ainda está sendo realizado o trabalho de busca de apoios e interlocuções com a comunidade local. Apesar de ser uma edição virtual, estão sendo realizados todos os esforços para que a festa traga as características de sempre, que é ser parte da força genuína do território em que está localizada. 

 

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Nhe’éry, Plants and Literature

19th FLIP Institutional Presentation

 

The COVID-19 pandemic has claimed millions of victims, closing borders, exposing contradictions and changing social relations. The virus has revealed humanity’s current problems and dilemmas, beginning with socio-economic inequality and the accelerated destruction of the environment. Thus, a reflection on other ways of being in the world is gaining strength. It would be impossible, and imprudent, to minimise the immense tragedy we have been through, at this moment wishing for simply a return to normal – which was one of the causes of the problem. There is an urgent need to imagine other forms of life, without focussing on the “human”, preparing the ground to prevent an aggravation of the climatic crisis the planet is already experiencing.

 

FLIP (Brazil International Literary Festival of Paraty) is offering itself as one of the possible platforms for central, imaginative launches at this moment. Over the years, the Festival has established itself as one of the main international literary gatherings, a meeting place for creative crowds of all origins. FLIP has flourished in a town where a significant part of the territory is occupied by socio-environmentally protected areas, in a region recognized as a UNESCO Mixed World Heritage Site, a title which, in itself, encourages the obligation never to separate culture and nature.

 

It is from this perspective that FLIP is turning itself into a laboratory which will be searching for other expressions, languages, perspectives and worlds. Looking from Paraty – the Festival’s native town, a place where the waters meet the land – we search for inspiration in the forest for this year’s Festival. In the pandemic, humanity has reduced its mobility and has experienced a less frenetic temporality, which are characteristics more associated with the Plant Kingdom. It’s high time we thought with and learnt from plants.

 

Nhe’éry (pronounced nheeri) is what the Guarani people call the Atlantic Rain Forest, a name that reveals the pluriversality of the forest. As the filmmaker and Guarani Mbya people leader Carlos Papá explains, Nhe’éry means “where souls bathe”. Besides this, Nhe’éry also conducts messages through word threads. 

 

With these word threads, we enlace the literature, which is essential for considering the world and the relations between humans and non-humans. The great importance of plants in literary works needs to be highlighted: Guimarães Rosa’s buriti palms, Clarice Lispector’s Botanical Garden and flowers, Fernando Pessoas’s forests, Mãe Stella de Oxóss’s sacred leaves, Basho’s banana tree, Amos Tutuola’s palm trees and jungles, Emily Dickinson’s Herbarium, Waly Salomão’s cross pollination, Ursula K. Le Guin’s Forest-planet, Oswald de Andrade’s “the school and the forest”, following new word threads of contemporary fictionists and poets – the literary text in the form of narrative, poetry or drama, oral or written, has given a fundamental contribution regarding the respect and value for different forms of life.

 

Curatorship

We seek diversity in the forests, collaboration rather than competition, regenerative capacity, the communication network established in the air and on the land between the tree roots and the fungal hyphae, the alliances formed by waters, stones, plants, winds, insects, birds and all living things. That is why the 19th FLIP is working for the first time with the concept of a “curatorial forest”,  a curators collective.

 

Hermano Vianna, an anthropologist by training and a master mixer of information, will be coordinating the works of this curators collective, whose members are Anna Dantes, who has collaborated in various projects at Escola Viva Huni Kuin for more than ten years and is one of the founders of Selvagem – Study cycle on life; Evando Nascimento, writer and philosopher, pioneer in the reflection on literature and plants in Brazil; João Paulo Lima Barreto, a native Tukano anthropologist and founder of the Centro de Medicina Indígena in Manaus, and Pedro Meira Monteiro, professor at Princeton University and one of the founders of the Poéticas Amazônicas Workshop, at the University’s Brazil LAB.

 

With dates set for November 27 to December 5, FLIP wants to act as a laboratory for learning about teachings from the perspective of Nhe’éry. We will be seeking to open space for reflection on the issues of the contemporary world and overcoming of crises from the artistic, semantic, cognitive, environmental, political and socio-economic points of view. With this in mind, the programme will dialogue with creators, thinkers and knowledge-holders who have turned to ancestralities and other models of social organisation and different views on knowledge.

 

In the general programme, the round tables and videographic interventions will attempt a hybrid format, between the in person and the virtual mode, at a still delicate moment in the COVID-19 pandemic. Everything will be laboratorial in character, in construction, based on intellective and sensory experimentations. Everything will be a search for new paths that could lead us to a fairer, more equal, sustainable and creative world. It will be, then, a FLIP in the defence of art, the vegetation that protects the planet and, above all, life in its multiple configurations.

 

Homage

 

Still following the lessons of Nhe’éry, instead of an honoured writer, this year we will have a collective homage to all the thinkers/knowledge-holders/indigenous masters whose lives were interrupted by COVID-19. People of the various forests of Brazil, disciples of plants. FLIP 2021, inspired by such projects as the moving Memorial Vagalumes (Firefly Memorial), wishes to cultivate and spread their knowledge throughout the world. Human encyclopaedias, living libraries who must not disappear. To name but a few: Higino Tenório, writer, healer, specialist in cave and rock art, teacher and founder of the first school for the Tuyuka people; Feliciano Lana, internationally recognised visual artist and writer member of the Desana people; Zé Yté, key collaborator on the most important studies on Kayapó ethnobiology; Maria de Lurdes, guardian of the healing plants of the Mura people; Meriná, teacher of the healing and blessing rituals of the Macuxi people; Alípio Xinuli Irantxe, flute-master of the Manoki people; Domingos Venite, Guarani leader of the largest indigenous reserve in the state of Rio de Janeiro, new indigenous health policy militant. We will be celebrating the work of many others from various indigenous peoples in our Homage Cycle. Through these names, FLIP will also honour all the victims of the pandemic, including people from other wisdoms and narratives, such as Zé de Paizinho, master of samba de aboio, the poets Olga Savary, Maria Lúcia Alvim and Vicente Cecim, and the writer Sérgio Sant’Anna.