Sobre esta edição

Relembrando uma ideia do escritor argentino Ricardo Piglia, que só não veio a Paraty por conta de um imprevisto, a literatura é a arte de construir uma memória própria a partir de lembranças alheias. A formação de um leitor e de sua perspectiva crítica, capaz de modificar tudo ao seu redor, passa pela memória dos outros, cujas memórias foram formadas por outras, num processo de infinitas possibilidades. Essa é uma das forças invisíveis mais belas da literatura.

A arquitetura, como todas as humanidades, também opera com a dimensão do acúmulo de experiências e linguagens. Somente assim, pela experiência de habitar espaços públicos ativados pela arte, a concepção arquitetônica da Flip pode catalisar intervenções urbanas à altura do legado histórico da cidade.

Ano após ano, esses espaços públicos vão ganhando camadas de memória afetiva de moradores e visitantes, contribuindo para a criação da identidade da Flip. A memória de cada um ajuda a redimensionar as estruturas, até mesmo as efêmeras, da Festa, como os auditórios e a Livraria da Flip, que ganham um caráter de permanência num processo de habitar que completa agora dezessete anos.

A homenagem a Euclides da Cunha (1866-1909) ajuda a trazer à tona um pouco do método de intersecção entre artes e linguagens, fundamental para a criação de cada Flip. Para escrever com a sensibilidade necessária sobre a paisagem que nos leva ao povoado de Canudos, seus homens e suas mulheres, o escritor precisou valer-se de muitas linguagens – jornalismo, arquitetura, sociologia, história, geografia e várias expressões da literatura, como a épica e a dramática.

Em um primeiro momento, levou as lembranças e as memórias do sertão aos leitores de São Paulo. Depois, aos de todo o Brasil. E agora, durante cinco dias, ao público de Paraty, que uma vez mais se encontra nas ruas e praças de uma cidade em festa.