20ª Festa Literária Internacional de Paraty — de 23 a 27 de novembro de 2022

Autora Homenageada: Maria Firmina dos Reis

Embora não haja certeza sobre a data, o mais provável é que Maria Firmina dos Reis tenha nascido em 1822. Escritora e educadora, em 1859 lançou Úrsula, romance que inaugura, no Brasil, com genialidade, a linhagem da literatura abolicionista e que, após anos de apagamento, vem paulatinamente ganhando mais atenção, dentro e fora do Brasil. O ineditismo e a valentia do texto de Maria Firmina dos Reis são significativos para entender como ela ao mesmo tempo leu o seu momento histórico e soube fabular a partir dele. Professora de primeiras letras em Guimarães, no Maranhão, sua obra prolífica se construiu praticamente em paralelo à literatura majoritariamente masculina e branca dos círculos literários brasileiros. A homenagem a ela vem em bom momento, tanto pela qualidade de sua produção em diversos gêneros, como pelo fato de que por bastante tempo ela ficou à margem da história canônica da literatura brasileira.

A obra e a vida de Maria Firmina são também o símbolo de um Brasil que luta para sair das malhas de sua história de raiz colonial, marcada pela violência física e também simbólica, geradora de uma separação brutal entre aqueles que têm e os que não têm acesso ao mundo da imaginação propiciado pela letra impressa. Nesse sentido, sua atuação vigorosa como educadora nos dá um recado sobre a vitalidade e a importância da cultura num país tão machucado quanto o Brasil. Somente na década de 1970 Maria Firmina emerge como voz dissonante, resultado de leituras contra-hegemônicas de pesquisadores e pesquisadoras. Que Maria Firmina dos Reis tenha morrido sem qualquer prestígio, em 1917, torna ainda mais urgente comemorar seu legado, que é também o de uma insistente vigilância sobre os valores humanos, capaz de recolocar no centro do debate contemporâneo a educação e a imaginação, mas também a educação para a imaginação.

Neste ano, marcado pelo bicentenário da Independência e pelo centenário da Semana de Arte Moderna, a homenagem a Maria Firmina valoriza quem trabalha incessantemente pela palavra e por um ambiente cultural e educacional mais acolhedor, seja nos centros econômicos ouna s bordas do País, onde produzir cultura e conhecimento é, por si só, um ato de rebeldia.

Maria Firmina dos Reis é uma autora que coletivos de leitura, professoras e autoras contemporâneas se esforçam para que continue sendo lida, no intuito de que seus textos permeiem mais vidas com personagens e narrativas inesquecíveis.

A homenagem a Maria Firmina dos Reis reafirma o propósito da Flip de se conectar com pessoas das
mais variadas origens e trajetórias para fazer o Brasil conhecer mais de si mesmo. E reforça o desejo de que a pluralidade de discursos possa ser ouvida em Paraty e levada para longe por cada pessoa que participar da festa.

Ciclo da Autora Homenageada

Entre os dias 19 e 22 de outubro, a Flip e o Centro de Pesquisa e Formação do Sesc – CPF/Sesc promoveram, em São Paulo, o Ciclo da Autora Homenageada, uma série de debates que tem como objetivo permitir uma investigação mais ampla e multidisciplinar a respeito das contribuições de cada um dos autores e autoras homenageados pela Festa.

Ao longo de quatro painéis, professores, pesquisadores e artistas discutiram a importância da autora homenageada pela 20ª edição da Festa para a literatura brasileira.

O primeiro debate, “Maria Firmina dos Reis e o cânone”, partiu da premissa de que a entrada de Maria Firmina dos Reis na história da literatura brasileira ilumina as disputas e as rasuras da narrativa tradicional do cânone. Com mediação de Fernanda Bastos, os professores Eduardo de Assis Duarte, Denise Carrascosa e Fernanda Miranda discutiram em que medida a obra da escritora evidencia as falhas das tentativas de criar uma história linear e pacificadora sobre a produção literária local. Essa dicussão sobre o cânone possibilitou, ainda, que se lançasse um olhar curioso sobre como a produção de Maria Firmina dos Reis inspira a afirmação de um outro cânone, mais negro, feminino e abolicionista na história da literatura brasileira.

No segundo dia, Milena Britto reuniu-se com Luciana Martins Diogo, Régia Agostinho da Silva e Luiz Mauricio Azevedo em “Úrsula e o Abolicionismo”. A discussão partiu do romance de estreia da autora para discutir a abolição, tema caro para a obra de Maria Firmina dos Reis. Em “Úrsula”, que recompõe a travessia pelo Atlântico de pessoas que são escravizadas no Brasil, personagens como Preta Susana representam um relato importante para a ficção que defende o abolicionismo, servindo também para que, mesmo nos dias de hoje, possamos entender a condição negra no século 19.

A biografia de Maria Firmina dos Reis foi tema, no terceiro dia, da conversa entre Matheus Gato, Mirian Cristina dos Santos e Juliano Carrupt do Nascimento, e mediada por Dulci Lima. Em “Trajetória de Maria Firmina na história da intelectualidade negra”, refletiu-se em que medida a biografia da escritora é ponto fora da curva em nossa tradição literária, de modo a aprofundar o debate sobre o papel de Maria Firmina na longa linhagem de artistas, profissionais das letras e educadoras que formam a intelectualidade negra brasileira.
O último encontro, “A poesia de Maria Firmina dos Reis e a produção contemporânea”, dividido em dois momentos, teve como ponto de partida as várias formas que o público tem incorporado a produção de Maria Firmina dos Reis. Primeiro foi a vez de Pedro Meira Monteiro reunir Lívia Natália e Regina Azevedo, poetas que representam esse legado de coragem e amor pela poesia, e que, tal como Maria Firmina, batalham para que a literatura seja democratizada. Logo em seguida, para celebrar a força da oralidade, tomou o centro do palco uma apresentação artística do Slam das Minas, batalha poética que nasceu em São Paulo, e que atua com literatura em diversas linguagens, explorando as construções possíveis através das palavras.